Deslumbramento tecnológico ameaça bibliotecas e abre caminho à desinformação
A falta de financiamento e o encanto desmedido pela tecnologia estão a colocar em risco a rede nacional de bibliotecas. Teresa Calçada, antiga comissária do Plano Nacional de Leitura 2027, alerta para...

A falta de financiamento e o encanto desmedido pela tecnologia estão a colocar em risco a rede nacional de bibliotecas. Teresa Calçada, antiga comissária do Plano Nacional de Leitura 2027, alerta para um cenário de desinvestimento público que facilita a propagação de desinformação.
Durante o 15.º Congresso Nacional da Associação Portuguesa de Bibliotecários, no Porto, a especialista criticou a ideia de que o digital dispensa a modernização dos espaços físicos de leitura. Para a ex-comissária, travar as atualizações e ignorar a contratação de pessoal qualificado representa uma ameaça direta à procura da verdade.
Bibliotecas ao nível da saúde
O funcionamento pleno da política nacional de leitura exige uma mudança de perspetiva da classe política. Teresa Calçada defende que a rede pública de leitura deve assumir um grau de prioridade equiparado aos cuidados de saúde primários ou ao fornecimento de eletricidade.
A ausência de profissionais nos espaços de leitura gera falhas graves no sistema educativo. A antiga coordenadora da Rede de Bibliotecas Escolares aponta o dedo a algumas decisões governamentais recentes, classificando-as como demagógicas e mal informadas.
Estantes sem mediadores
A medida do atual Governo para criar 400 bibliotecas em escolas primárias exemplifica o problema central. Colocar apenas estantes com livros, sem garantir a presença de um mediador humano, anula quase por completo o impacto prático da iniciativa.
O desinvestimento prolongado nos recursos humanos compromete também a integração escolar. Teresa Calçada lembra o caso de escolas com alunos de dezenas de nacionalidades onde faltam obras nos respetivos idiomas, precisamente devido à ausência de técnicos focados numa curadoria adequada do acervo.
Defesa dos valores democráticos
A desvalorização das humanidades em favor de um sistema puramente focado na produtividade afeta o desenvolvimento cívico das novas gerações. Combater o desprezo pelo conhecimento complexo e pelos próprios livros tornou-se uma obrigação moral irrenunciável do ensino em Portugal.
O congresso que junta profissionais da informação na Universidade Portucalense debate precisamente este compromisso democrático. Mais de 500 especialistas procuram soluções para afirmar os arquivos e as bibliotecas como espaços seguros de diálogo e inclusão, essenciais para resistir à fragmentação social e aos novos desafios trazidos pela inteligência artificial.



























