Macacos de Gibraltar comem terra para combater efeitos de comida processada
Os macacos-berbere de Gibraltar desenvolveram uma estratégia alimentar invulgar para lidar com os problemas digestivos causados pela comida processada dos turistas. Pela primeira vez, cientistas docum...

Comportamento inédito documentado por cientistas
Os macacos-berbere de Gibraltar desenvolveram uma estratégia alimentar invulgar para lidar com os problemas digestivos causados pela comida processada dos turistas. Pela primeira vez, cientistas documentaram o recurso regular à geofagia – a ingestão intencional de terra – nesta população, a única de macacos em liberdade na Europa.
A investigação da Universidade de Cambridge revela que os animais em contacto frequente com visitantes consomem significativamente mais terra, com picos durante a época alta de turismo.
Dados recolhidos ao longo de dois anos
Entre o verão de 2022 e a primavera de 2024, a equipa registou 46 episódios de ingestão de terra em 44 animais diferentes, durante 98 dias de observação no Rochedo de Gibraltar, no sul da Península Ibérica.
Três casos ocorreram minutos após o consumo de alimentos processados: gelado (7 minutos), bolachas (48 minutos) e pão (6 minutos).
Chocolate e gelados alteram microbioma intestinal
Segundo Sylvain Lemoine, primatologista do Departamento de Arqueologia de Cambridge e fundador do Projeto Macacos de Gibraltar, os doces e salgados consumidos pelos animais são extremamente ricos em calorias, açúcar, sal e laticínios.
"Isto é completamente diferente dos alimentos tipicamente consumidos pela espécie, como ervas, folhas, sementes e, ocasionalmente, insetos", explica o investigador.
Os alimentos processados alteram a composição do microbioma intestinal dos primatas, provocando desconforto gastrointestinal.
Terra funciona como protetor digestivo
A ingestão de solo ajuda a reequilibrar o estômago dos macacos, fornecendo bactérias e minerais ausentes nos alimentos processados. O solo atua como barreira no trato digestivo, limitando a absorção de compostos nocivos e aliviando sintomas que vão desde náuseas a diarreia.
Os investigadores acreditam que o comportamento surgiu para proteger o sistema digestivo da elevada energia e baixo teor de fibras da comida processada.
Preferência por argila vermelha
Os macacos demonstram preferências claras por determinados tipos de solo. A "terra rossa" ou argila vermelha de Gibraltar representou 83% de todos os episódios registados.
Foram observados uma média de 12 eventos de ingestão de solo por semana, um valor elevado comparável ao dos chimpanzés e lémures, que comem terra para obter minerais e proteção contra toxinas vegetais.
Comportamento transmitido socialmente
Cerca de 30% dos casos ocorreram em grupo, com vários animais a comerem terra do mesmo afloramento rochoso. Em 89% dos incidentes, outros macacos estavam presentes e observavam.
Diferentes grupos apresentam preferências por tipos específicos de solo, o que sugere transmissão social do comportamento.
Atualmente existem cerca de 230 macacos-berbere em Gibraltar, distribuídos por oito grupos estáveis. As autoridades locais fornecem diariamente frutas, legumes e água em pontos de alimentação.



























